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Publicado em 02 de maio de 2013 | 8 minutos de leitura

ALTAS HABILIDADES: desafio para pais e professores

Trabalhar com crianças que apresentam altas habilidades não  é tarefa simples. Exige atenção e esforço redobrados. Geralmente, elas são inquietas, têm raciocínio rápido e aprendem com facilidade, exigindo do professor um empenho maior para que continuem interessadas e motivadas pelo aprendizado. Mas, antes de mais nada, é preciso desmitificar o conceito que se tem de superdotados. Ter altas habilidades não significa necessariamente ter um QI acima da média, ser um gênio dotado de capacidades raras, e sim apresentar facilidade para o aprendizado.

Na avaliação da coordenadora do Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação (NPAS), Christina Cupertino, as pessoas têm ainda uma visão antiga do que é ser superdotado. “As pessoas confundem superdotado com genialidade. E não é isso. A criança superdotada é aquela que aprende mais rápido, tem interesse por uma gama variada de coisas, é criativa, entre outros aspectos”, explica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que pelo menos 5% da população do planeta tem algum tipo de altas habilidades.  De acordo com Joseph Renzulli, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, a superdotação é um comportamento. E o fundamental nesses casos não é rotular a criança, e sim oferecerlhe condições para que desenvolva suas habilidades. Os estudantes com esse potencial precisam de uma flexibilização da aula para que suas necessidades particulares sejam atendidas.

Para ajudar na identificação e desenvolvimento desses jovens, o Ministério da Educação criou, em 2005, os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação, presentes em todos os estados e no Distrito Federal.  O objetivo é auxiliar as escolas quando elas reconhecem alunos com este perfil em suas salas de aula.  A ação dos NAAHS é estruturada em três vias: atendimento ao professor, ao aluno e à família. Ao professor, são dadas orientações tanto para a identificação dos estudantes quanto para a melhor inserção deles em sala de aula. Já à família, são dadas instruções para que não haja a construção de expectativas que, a longo prazo, comprometam o desenvolvimento emocional das crianças.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional assegura atendimento específico tanto ao alto habilidoso, quanto aos alunos com dificuldades de aprendizagem. No caso de crianças superdotadas, há dois caminhos a serem seguidos: a aceleração curricular, quando a criança apresenta um excelente desenvolvimento em várias áreas cognitivas, como em Português e Matemática, e pode frequentar aulas com crianças mais velhas; ou o enriquecimento curricular, que é a oferta, pela escola, de um currículo diferenciado nas áreas  em que a criança apresenta as altas habilidades.

Mas esse enriquecimento não significa um aumento do número de tarefas, pois, segundo Christina Cupertino, a criança logo perceberá que está trabalhando mais do que os colegas e não contribuirá com as atividades.

Fundadora e coordenadora do programa de superdotados do Centro de Estudos da Criança (CEC) — um Centro de Informação e Atualização ao professor sobre o desenvolvimento infantil —, no Méier, a neuropsicóloga e doutora em Psicologia Rosa Prista diz que não é raro encontrar superdotados em salas de aula. Segundo ela, em média, de 2 a 3 alunos de cada turma têm altas habilidades.

Identificar essas crianças não é difícil. Basta um olhar mais atento. Geralmente, apresentam  precocidade no desenvolvimento, principalmente psicomotor e nas linguagens humanas. Além disso, têm interesses originais por temas que a maioria dos colegas não foca, detestam rotina e estão sempre buscando algo novo para fazer.

De acordo com a neuropsicóloga, esses aspectos já sinalizam a necessidade de cuidar mais dessa pessoa, pois o que é rico inicialmente pode se perder em patologias ou desinteresse se pais e professores não perceberem. “Do modo como nossa escola hoje está organizada – dentro de abordagens de ensino que não levam em conta a subjetividade do aluno, o pensamento criativo e crítico – não localizaremos pessoas que necessitam de atendimento especializado”, critica Rosa Prista.

De acordo com a coordenadora do CEC, o país desperdiça talentos em função da falta de atendimento adequado a essas crianças. “Estamos desperdiçando talentos porque não temos políticas públicas construídas por educadores. Quem está no Poder das secretarias de educação são pessoas indicadas e não eleitas pelos educadores. São pessoas que não raciocinam em processos humanizados pelo movimento de formar um povo criativo, crítico e que saiba respeitar e elevar o nosso Brasil”, adverte. 

A coordenadora do NAPS, Christina Cupertino, lembra que essas crianças geralmente são incompreendidas, sofrem, são segregadas e, não raro, diagnosticadas com hiperatividade ou Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, devido à falta de preparado de pais e/ou professores. “Os professores precisam elaborar projetos para esses alunos, achar uma forma de estimular essas crianças e não de acabar com sua curiosidade, o que pode ocorrer diante de repetidos “não”, explica a educadora.

Rosa Prista lembra que superdotados são naturalmente ativos e ficam hiperativos  sempre que tentam impor-lhes regras. “A hiperatividade é um sintoma de que algo não vai bem, não uma doença. A criança e o adolescente falam muito pelo corpo. Infelizmente, com a medicalização nas escolas qualquer comportamento questionador e agitado já é taxado de patologia e perde-se a percepção das competências. Gosto muito de um ditado chinês que expressa bem o superdotado:  dois homens olham por uma janela. Um vê as grades e o outro as estrelas. O superdotado vê as estrelas. O problema é se os adultos a volta só veem grades!  Muitas pessoas com TDAH/I são superdotados que não encontraram espaço de elaboração e crédito a seu potencial”, afirma a neuropsicóloga.

Características
dos superdotados

De acordo com a cartilha do NAAHS, é possível identificar esses alunos em uma ou várias áreas:

– Acadêmica – Tiram boas notas em algumas matérias na escola – não necessariamente em todas. Têm facilidade com as abstrações, compreensão rápida das coisas e demonstram facilidade de memorização.

– Criativa – São curiosos, imaginativos, gostam de brincar com ideias, têm respostas bem-humoradas e diferentes do usual.

– Liderança – São cooperativos, gostam de liderar os que estão ao seu redor, são sociáveis e preferem não estar só.

– Artística – Habilidade em expressar sentimentos, pensamentos e humor por meio da arte, dança, teatro e música.

– Psicomotora – Habilidade em esportes e atividades que requerem o uso do corpo, boa coordenação psicomotora.

– Motivação – São totalmente envolvidos pela atividade do seu interesse, resistem à interrupção, facilmente se chateiam com tarefas de rotina, se esforçam para atingir a perfeição.

 

Para saber mais:

Leia os livros “Superdotados, psicomotricidade e conscientização” e “Superdotados. A complexidade humana em questão”, de Rosa Prista.


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